• Thiago Guimarães

Ainda existe o amor?


Quando estamos conhecendo alguém, criamos na nossa cabeça um modelo ideal do que gostaríamos que fosse aquela pessoa. É como se criássemos um boneco de pano do jeito que imaginamos, baseados na nossa experiência de vida, com as qualidades que sonhamos. Ficamos imaginando que aquela pessoa é bacana, honesta, esforçada, disciplinada, fiel e que vai ser companheira nos momentos mais difíceis da nossa vida. Fantasiamos um personagem perfeito baseado em fatos, aspectos e características daquilo que interagimos sem dar oportunidade de observar quem realmente é a pessoa. Este personagem que criamos na nossa mente se encaixa de forma ideal naquilo que buscamos e assim, acabamos nos apaixonando por este ser imaginado e acreditamos cegamente que estamos amando de verdade. Com o passar do tempo, aos poucos começamos a perceber que a pessoa não corresponde aquilo que imaginamos. O véu da ilusão começa a cair e nos vemos presos numa maldita armadilha criada por nós mesmos. Percebemos que tudo aquilo que sonhamos desmoronou. Idealizamos a relação e a pessoa e tudo aquilo que parecia de um jeito de repente se revelou de outro. Este tipo de situação é facilmente percebido naquelas histórias onde o casal se apaixona na adolescência e, por qualquer motivo que seja, teve que se separar. Cada um foi para um lado na vida, mas carregou consigo o amor interrompido. Geralmente essas pessoas seguem suas vidas e encontram outra pessoa lá na frente, se casam, tem filhos, mas nunca se esquecem do amor que foi deixado para trás. A ferida trazida no coração traz sempre a dúvida de como teria sido a vida se o relacionamento tivesse seguido em frente. Será que teria dado certo? Será que teriam sido felizes? Será que teriam tido filhos? Será que ainda estariam juntos? O SENTIMENTO DE DÚVIDA As pessoas que passam por esta situação sempre relatam que, mesmo com o passar do tempo, sentem angústia por não terem vivido o tal relacionamento. Elas contam que este sentimento de dúvida os persegue a vida toda e que por isso nunca conseguiram se entregar completamente a nenhuma outra pessoa, ficando sempre aquela sensação de algo mal resolvido. Porém, hoje em dia, com toda a facilidade que temos em encontrar as pessoas pelas redes sociais, muitos desses casais que foram separados no passado conseguiram se reencontrar. E foi o relato de um taxista que me chamou a atenção. Ele deixou a vida toda para trás e viajou 800km para ficar com uma antiga namorada que reencontrou depois de 20 anos pela internet. Eles foram separados na adolescência por que ela precisou mudar de cidade e nunca mais se viram e nem se falaram. Os dois acreditavam que nunca mais fossem se encontrar e cada um construiu a sua vida, casaram e formaram suas famílias com outras pessoas. E ele conta que não conseguiu ser completamente feliz porque não conseguia esquecer o amor deixado para trás. Porém, quando se encontraram os dois estavam separados e o desejo de dar continuidade no relacionamento da adolescência foi tão grande que logo já foram morar juntos. No dia que encontrei este taxista eles já estavam debaixo do mesmo teto há 8 meses ele me disse que ficou impressionado com a mudança da personalidade dela. Ele conta que hoje ela é uma mulher brava e ciumenta, que não tem paciência nenhuma e que implica por qualquer coisa. “Eu realmente não imaginava que ela ia virar isso. Ela mudou, virou outra pessoa. Aquela menina doce que eu conheci ficou lá no passado”, esbravejou ele com um olhar profundo de decepção. Provavelmente a menina doce só existiu na fantasia dele e como o relacionamento foi interrompido não deu tempo de realmente perceber como ela era de verdade. O que ficou na memória foi só o que ele imaginou que ela fosse. Agora com o convívio do dia a dia e com a maturidade os dois podem perceber que viveram uma paixão baseada na fantasia e que tem muito a ser construído de verdade. Este casal vai precisar se conhecer, se perceber, se aceitar e se lapidar um para o outro. Cada uma vai ter que ceder um pouco para que possam se encaixar. Nós gostamos de viver histórias de amor, mas temos que tomar cuidado para não forçar uma realidade que não existe só por carência ou medo de ficarmos sozinhos. É a mesma coisa que calçar um sapato apertado: chega uma hora que vai doer e machucar. Se for de verdade, não precisa vestir máscara, não precisa apertar para caber. Quando é real, encaixa. Quando crescemos e amadurecemos temos bagagem suficiente para nos perceber e perceber o outro e então fica mais difícil de cairmos na armadilha da fantasia. Ficamos mais atentos aos sinais que o outro nos dá e então fica mais fácil decidir quem sim, quem não e quem nunca. O mestre habita dentro de nós. Ao longo da vida vamos aprendendo a ouvir a voz da intuição, que eu costumo de dizer que são as vozes dos nossos antepassados nos dando uma direção. THIAGO GUIMARÃES

Psicoterapeuta junguiano e autor do livro “O Segredo da Mulher Maravilha”. Em seu consultório atende crianças, adolescentes, adultos e casais. Atua em São Paulo e no Rio de Janeiro. É palestrante, ministra cursos, workshops e escreve sobre relacionamento, comportamento e bem-estar.

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