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  • Thiago Guimarães

O TEMPO CORRE

A vida é um sopro e já passou da hora de não deixamos mais as coisas para depois


Outro dia recebi a notícia da morte de um amigo muito querido e me vi sentado no sofá da

minha sala, com os olhos arregalados para a mensagem na tela do meu celular. Meu

corpo não respondia aos comandos da minha mente que tentava processar aquela

informação. Aquilo era estranho, aquela notícia não se encaixava na realidade. Não no

falávamos todos os dias, mas sempre que nos encontrávamos, ele me dava um abraço

carinhoso, verdadeiro e demorado. Ele era o tipo de pessoa que olhava no fundo dos

olhos da gente para falar. Nem todo mundo consegue fazer isso.


A partida de um cara tão jovem provocou em mim, naquele momento e nos dias

seguintes, uma enxurrada de reflexões. Poxa vida, eu nunca consegui dizer o quanto eu o

achava uma pessoa bacana e o quanto eu o admirava. Não deu tempo. Nós tentamos

marcar alguns cafés, mas outros compromissos acabavam surgindo e o encontro ficava

sempre para depois. Um depois que só agora eu sei que não vai mais chegar.


Diante disso, hoje eu me pergunto: quantas pessoas a gente precisa perder para entender

a rapidez da vida? Tenho tantos amigos que amo, mas que talvez nem saibam o quanto

são importantes para mim. Tanta gente próxima que eu admiro à distância e que nunca

me dei a oportunidade de expressar esse sentimento. A vida é fugaz, passageira demais

para deixar as coisas para depois. O pior é que a gente sempre acha que terá mais

tempo. Mais tempo para brindar, para expressar, para amar. E nessa ilusão de que o

tempo é longo, a gente procrastina. E assim o tempo vai passando e a gente se acostuma

e aprende a deixar tudo para uma outra hora. Com isso, estamos cada vez mais distantes

uns dos outros.


A gente perde tanto tempo com preocupações tolas, coisas que, provavelmente, não vão

acontecer. Medos que não fazem nenhum sentido e que nos roubam de nós mesmos. A

gente gasta muita energia preocupado com que os outros vão pensar daquilo que

estamos ou não fazendo. Alguns lidam de uma forma melhor (admiro) e outros nem tanto,

mas no fundo todos nós somos assim. Mas, será que vale a pena?


No dia de sua morte fulminante, ele estava enviando os convites da sua festa de

aniversário que aconteceria dias depois. Não teve festa. A chama da vela apagou e isso

nos prova que o nosso fim pode acontecer a qualquer momento, de qualquer jeito.

Enquanto você lê este texto, eu estou aqui (espero que ainda esteja), mas daqui a pouco

posso não estar mais. Não dá tempo. Como um simples sopro, tudo pode acabar. A

efemeridade da vida é impressionante (e assustadora), mas mesmo assim a deixamos

passar com uma lista de coisas para depois. Ufa!


Já que você chegou até aqui (assim espero), gostaria de te lançar um desafio: pense um

pouco em tudo o que tem deixado para depois. Respire fundo (a gente tem dificuldade em

fazer isso) e reflita (também não é fácil): as pessoas que você ama, sabem que você as

ama? Quando foi a última vez que você expressou seus sentimentos de forma clara e

olhando nos olhos delas?


O desafio é: faça isso. Aproveite enquanto a chama ainda está acesa. Afinal, o que

importa é o legado que a gente deixa. Não dá mais tempo de deixar para depois. Mande

mensagem para seus amigos, ligue ou faça uma chamada de vídeo para as pessoas que

você gosta para dizer o quanto elas são importantes para você. Eu sei que, assim como eu, você também tem deixado muita coisa para depois. Nós podemos mudar isso e o

momento é agora. Não é tão difícil, não custa nada e o resultado pode ser surpreendente.

Talvez assim, a gente descubra o quanto também é amado. Afinal, do que mais a

gente precisa?


Thiago Guimarães Especialista em Psicologia Analítica e pós-graduando em Neurociência e Comportamento pela Pontifícia Universidade Católica (PUC).

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